Racismo no futebol brasileiro tem raízes históricas

quarta-feira 12 de março de 2014

Os casos de racismo registrados, este ano, ampliam o histórico de atos deste tipo no futebol brasileiro. No início do século XX, o futebol foi popularizado pelos operários europeus, que vieram ao Brasil.

Os casos de racismo registrados, este ano, ampliam o histórico de atos deste tipo no futebol brasileiro. No início do século XX, o futebol foi popularizado pelos operários europeus, que vieram ao Brasil. Muitos clubes criados por estes imigrantes surgiram e só aceitavam brancos. Mas o esporte ganhou as ruas e adeptos da pluralidade brasileira – brancos, pardos, mulatos.

Com a dificuldade de encontrar jogadores europeus e a desenvoltura dos brasileiros no novo esporte, os clubes, aos poucos, aceiraram novos jogadores. Algumas agremiações foram mais conservadoras e as mudanças trouxeram os primeiros conflitos e manifestações racistas.

Um caso ficou famoso e dificilmente será esquecido. O Fluminense, um dos muitos clubes que se orgulhava em manter as tradições europeias de seus fundadores, é conhecido como pó de arroz por conta do jogador Carlos Alberto. Para se ’camuflar’, o atleta passava o pó de arroz, que escorria por seu rosto à medida que as gotas de suor caíam, como relatou Mário Filho, em sua obra O Negro no Futebol Brasileiro, de 1947. Confira a transcrição:

"O caso de Carlos Alberto, do Fluminense. Tinha vindo do América, com os Mendonças, Marcos e Luís. Enquanto esteve no América, jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. Também Carlos Alberto, no América, não quis passar por branco. No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças na arquibancada, parar um instante, levantar o braço, abrir a boca num ’hip, hip, hurrah’.

Era o momento em que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.

Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Sales caia em cima de Carlos Alberto:

– Pó-de-arroz! Pó-de-arroz!

A torcida do Fluminense procurava esquecer-se de que Carlos Alberto era mulato. Um bom rapaz, muito fino.’’

Fonte: DM

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