Onde ela escondia seu racismo?

quarta-feira 26 de setembro de 2012

A Doutora em antropologia e professora de história das religiões afro na UEPA é acusada de injúria racial, que é uma forma mais “branda” de punição sobre casos de racismo.

Um programa de televisão mostrou um vídeo com imagens onde uma professora universitária utilizava vários termos considerados racistas para ofender um segurança e alguns estudantes negros. Esse caso aconteceu em setembro de 2012 na Universidade Estadual do Pará (UEPA) e teve como principal vítima um segurança negro. Dentre os xingamentos, ela o chamou de “macaco”.

A Doutora em antropologia e professora de história das religiões afro na UEPA é acusada de injúria racial, que é uma forma mais “branda” de punição sobre casos de racismo. Alguns dias após o referido fato, ela fez um pedido de desculpa alegando que utilizou o termo “macaco no sentido de macaquices”. Um inquérito foi aberto pela polícia para julgar o caso.

Em Carta aberta, o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA – requer que a Reitora da Universidade do Estado do Pará analise o caso: “...conforme a natureza de crime de racismo e não como simples crime de injúria racial, pois o ferido em sua dignidade humana, não foi apenas o Sr. Rubens Silva, mas a “raça”(sob rasura) negra, tão vilipendiada pelos horrores do racismo e da discriminação racial, sobretudo porque, no Brasil, se vive hoje na constante busca de cumprimento aos direitos humanos de todos, revendo os erros cometidos no passado.”

A utilização do termo “Macaco” como xingamento reforça estereótipos racistas. A estratégia utilizada tem como objetivo atrelar à população negra uma imagem de primata, de selvagem e de instintivo. Assim como já foram (e ainda são) atreladas falsas imagens aos africanos escravizados, às mulheres negras (mulatas), à juventude negra e outros grupos. Atitudes como essas não permitem que a população negra tenha uma imagem positiva de si.

Criado para representar uma imagem negativa sobre o outro, o estereótipo é um eficaz instrumento de dominação e uma eficiente forma de agressão bastante difundida no Brasil. Segundo Ana Célia no livro A discriminação do negro no livro didático, ”o estereótipo é uma visão simplificada e conveniente de um indivíduo ou grupo qualquer, utilizada para estimular o racismo”. Ainda sobre o estereótipo, cabe destacar mais um trecho deste livro: “... constrói idéia negativa a respeito do outro, nascida da necessidade de promover e justificar a agressão, construindo um eficaz instrumento de internalização da ideologia do embranquecimento.”

Cientistas de todo o mundo já realizaram pesquisas sobre os macacos. Em muitos casos, obtiveram resultados que os assemelham aos seres humanos e chegam a afirmar que descendem de um primata comum. Dentre as descobertas destaca-se que geneticamente têm cerca de 99% de semelhanças com os humanos. Analisaram os Chipanzés e perceberam que eles encaram a morte de forma similar aos humanos, conseguem resolver problemas de lógica e aprendem libras.

Após bastante tempo e dinheiro investidos, esses estudos ainda não serviram para mudança de certos comportamentos racistas. Uma contradição já que a maioria dessas pessoas costuma usar a ciência como explicação para quase tudo. Os estudos sobre a genética e os comportamentos dos macacos os assemelham com os humanos e não somente com os negros. Mesmo considerando que, do ponto de vista biológico, não existe uma superioridade entre os organismos, num caráter mais sociológico e antropológico nos permite alguns questionamentos: Embora os humanos tenham essa grande semelhança genética com os macacos, por que será que grupos e indivíduos racistas continuam utilizando esses animais como xingamentos? Seria essa semelhança somente entre a população negra e os macacos?

Os xingamentos atrelando à população negra uma imagem inferior e ruim revelam uma das mais comuns manifestações de racismo. Ao falar sobre o termo “macaco” como xingamento é importante relembrar equivocadas e racistas construções eurocêntricas que afirmavam a superioridade branca frente aos povos africanos. Provavelmente a professora estava imbuída por um sentimento como esse e sentiu-se no direito de atingir um segurança do local em que trabalha. O pedido de desculpas não a isenta da culpa (crime). Macaquice será deixar esse caso na impunidade!

Sobre estereótipos:

SILVA, Ana Célia. A Discriminação do negro no livro didático. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2004.

Informações sobre a semelhança entre humanos e macacos:

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude....

http://super.abril.com.br/ciencia/h....

Veja reportagem e entenda mais sobre o caso citado no texto:

http://fantastico.globo.com/Jornali....

Carta aberta do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA – à Reitora da Universidade do Estado do Pará:

http://www.cedenpa.org.br/Carta-abe...

Fonte: Correio Nagô.

apoio Apoio da Fundação Ford

Créditos | Admin