O acordar da pantera negra brasileira

terça-feira 10 de janeiro de 2012

Negros estão saindo do esconderijo, declarando-se pretos e pardos e assumindo suas raízes e heranças históricas. Isto é fundamental para a transformação do contexto histórico social brasileiro marcado pelo desvantagem dos afrodescendentes em relação ao branco.

A população preta e parda é oficialmente a maioria no Brasil. Este é um marco na história dos afrodescendentes brasileiros. E mesmo que as estatísticas da desigualdade deixem claro a dicotomia entre a real condição do negro e o progresso econômico e “político-ideológico” do país, existe um aspecto a ser comemorado.

Negros estão saindo do esconderijo, declarando-se pretos e pardos e assumindo suas raízes e heranças históricas. Isto é fundamental para a transformação do contexto histórico social brasileiro marcado pelo desvantagem dos afrodescendentes em relação ao branco. Grande parte das conquistas pela igualdade racial foram obtidas com a persistência de alguns ativistas como, por exemplo, Abadias Nascimento. Mas é chegada a hora de uma conscientização geral do negro no país.

Desde a abolição da escravatura, a elite branca brasileira vem agindo para manter o negro às margens da sociedade. Por outro lado, há exemplos de bravos defensores da democracia racial. Tanto negros quanto brancos. Mesmo assim, a balança ainda está desequilibrada. Parece que os artifícios usados ao longo da história foram tão efetivos que o negro aceitou a idéia de superioridade branca e inferioridade negra.

Entre vários dos argumentos que poderiam ser citados para explicar a certa apatia do negro estão a politíca de branqueamento da população promovida pela elite brasileira no final do século 19, a adoção de elementos africanos como símbolos de identidade nacional, o mito da democracia racial e a forma como a telenovela brasileira apresentou o negro, principalmente, nas décadas de 70, 80 e 90.

Branquemento

Tabela publicada no artigo Afro-Brazilian Politics in Brazil: White Supremacy, Black Struggle and Affirmation Action (Política Afro-Brasileira no Brazil: Supremacia Branca, Luta Negra e Ação Afirmativa) do acadêmico Ollie A. Johnson, mostra que, em 1890, pretos e pardos representavam 60% da população.

De acordo com dados apresentados pelo autor, esta foi a última vez, antes de 2000, que a porcentagem de negros superarou a porcentagem branca. O Censo 2010 concluiu que os afrodescendentes são maioria novamente: 50.7%. Aproximadamente, 10% a menos do que o verificado em 1890.

Naquele ano, a elite branca brasileira iniciou um processo de branqueamento da população por meio da imigração de europeus por temer o “efeito negativo” da população negra no desenvolvimento do país. Isto definiu a posição do negro às margens da sociedade, considerando que os brancos tinham prioridade no mercado de trabalho.

Segundo Johnson, a elite conseguiu seu objetivo em 50 anos. Em 1940, a porcentagem de negros caiu para 35% e de brancos subiu para 60%. “Entre 1880 e 1920 mais de 2 milhões de imigrantes brancos foram trazidos para o Brasil”.

Identidade nacional negra

No início do século 20, elementos culturais da população afro-brasieira tornaram-se mais e mais visivéis nacionalmente, especialmente no Rio de Janeiro. Isso mostrou-se politicamente proveitoso para o governo populista de Getúlio Vargas.

Durante os anos 30, o anseio de unir o povo brasileiro debaixo da mesma bandeira o levou a defender brasilidade como forma de amenizar tensões e conflitos baseados em diferenças sociais, raciais, étnicas e regionais. Christopher Dunn no seu livro Brutalidade Garden faz um bom recorte da cultura do Brasil ao contar a história da Tropicália. Nele, o autor diz que diferenças sociais e raciais foram absorvidas por um conceito unitário de cultura nacional baseado na mestiçagem.

“Durante o regime autoritário Estado Novo de Vargas, sambistas e compositores de samba foram mobilizados para cantar e exaltar uma nação unida e trabalhadora. Temas de harmônia social e beleza natural eram proiminentes em músicas associadas ao subgênero conhecido como samba-exaltação que exaltava a nação brasileira”.

Apesar de soar positivo, a nacionalização destes elementos aliada à discriminação sofrida pelos negros não favoreceu o sentimento de pertencimento e identidade racial.

Democracia racial

Neste mesmo contexto fortaleceu-se o mito da democracia racial que pregava mestiço como a raça do Brasil. Nacionalmente e internacionalmente acreditou-se que as diferentes raças brasileiras viviam em harmonia sem discriminação ou preconceito. Isso porque o separatismo não foi oficializado como fez os Estados Unidos e a África do Sul. Estudiosos como Abadias Nascimento e Guerreiro Ramos por muitos anos denunciaram a falsa igualdade racial no Brasil.

A atuação de ativistas como estes levou à organição civil da luta pela igualdade. O movimento negro no Brasil com a Movimento Negro Unificado (MNU), a Frente Negra Brasilieira (FNB) e o Teatro Experimental Negro (TEN) atuaram para inserção das questões negras na agenda de debate político e dos direitos dos afrodescentes perante a constituição e legislação brasileira.

Mesmo assim, este trabalho não foi e, ainda não é, conhecido por grande parte dos negros. Portanto, não houve uma união em massa da raça pela defesa dos seus direitos porque pretos não queriam ser vistos como tais, uma reação ao preconceito sofrido.

Negro e as telenovelas

Inferioridade e subserviência do negro em relação ao branco ganhou expressão nas telenovelas das décadas de 70, 80 e 90. Em sua maioria, negros sempre desempenhavam papéis de empregada domética, servente fiel ou o jagunço entre outros. O inferior. O submisso. Até mesmo as tramas que pretendiam contar a história do período escravocrata no Brasil falhavam.

Escrava Isaura é um dos grandes exemplos. Uma personagem branca foi escolhida para representar uma heroína afro-brasileira. Um estudo detalhado da presença dos negros nas telenovelas brasileiras foi feito pelo cineasta Joel Zito de Araújo no documentário A Negação do Brasil: o negro nas telenovelas brasileiras.

Assim como no passsado houve a ação da elite branca que confinou o negro às margens da sociedade, agora chegou o momento de usar mecanismos para criar a verdadeira democracia racial e ofecer o suporte necessário para mudar a atitude enraizada no país em relação aos afrodescendentes.

Ações afirmativas são primordiais e o reconhecimento de comunidades quilombolas são igualmente importantes, mas é necessário expor o negro às riquezas culturais e intelectuais produzidas por afrodescendentes dentro e fora do Brasil. Projetos como Hérois de Todo Mundo da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) estão no caminho, mas ainda é muito pouco. Nele, DVDs contando a história de artistas, escritores e personalidades negras vem sendo distruibuídos em escolas de todo Brasil.

Correção

É importante para o negro brasileiro entender e valorizar suas raízes. Mas também é fundamental observar que os afrodescendentes são parte de uma outra realidade e precisam referências contemporâneas. Zumbi dos Palmares é símbolo da resitência negra durante o período colonial e hoje é herói nacional, mas é preciso atualizar a lista.

O Censo 2010 mostra que os pretos e pardos brasileiros estão abertos a este processo de reconhecimento e necessitam dele para tranformar o contexto social do país. Como o Brasil está destacando-se no mercado global, este é o momento adequado para corrigir contradições sociais - como o mito da democracia racial - dando direito a todos os brasileiros de desfrutar igualmente do seu progresso.

Por Fabiana Reis Fonte: Ciranda.net

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