Barack Obama no Brasil. Visita prevê acordos comerciais e sociais

segunda-feira 14 de março de 2011

Nos próximos dias 19 e 20 de março, o presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama, visitará o Brasil pela primeira vez desde que assumiu o posto em 2009. Obama, que virá acompanhado de sua família, terá uma agenda protocolar com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília, e visitará uma favela no Rio de Janeiro. Além do Brasil, o presidente dos EUA segue também para o Chile (22) e El Salvador (23), nessa que é também a sua primeira visita à América Latina.

No Rio, a expectativa é que Obama visite a favela Chapéu Mangueira e Babilônia. A escolha dessa localidade deve ocorrer por um desejo de Obama conhecer essa comunidade. Nesse morro, foi gravado, em 1959, o filme O Orfeu Negro, uma co-produção franco-brasileira dirigida por Marcel Camus a partir de um roteiro do poeta e cantor Vinícius de Morais, um dos inventores da Bossa Nova. O filme teria sido apresentado a Obama por sua mãe, quando ele era jovem o que o fez tê-lo citado em sua autobiografia.

A comunidade Chapéu Mangueira é também uma das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), zonas administradas pelo poder público após a expulsão de traficantes de drogas que controlavam a localidade e pretende ser uma "resposta" à comunidade internacional, fruto da pressão por melhorias na segurança pública durante a realização da Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016. Segundo informações da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, no dia 20 de março, durante a visita ao Rio, o presidente falará para público em atividade aberta, ainda sem definição de local e horário.

Além de fechar acordos comerciais e ter encontros com empresários, a visita do primeiro presidente negro americano pretende consolidar a sua imagem positiva no maior país da América Latina, que é também uma das mais promissoras nações emergentes do mundo e a maior diáspora africana das Américas. Segundo pesquisa realizada entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, pelo Serviço Mundial da BBC, 64% dos brasileiros consideram positivo a imagem dos Estados Unidos, índice nove pontos percentuais maior do que na pesquisa anterior. Essa melhoria na imagem deve-se ao chamado "efeito Obama", já que em 2007, na administração Bush, 54 por cento dos entrevistados tinham uma opinião negativa sobre a nação estadunidense. É claro que a imagem no exterior não reflete necessariamente como os próprios estadunidenses veem o seu presidente que veio perdendo sua popularidade desde a histórica eleição, em 2008, devido a crise financeira que assola o país.

Obama, além de ser o primeiro presidente negro da história, chamou atenção à época da sua eleição pela sua idade, por sua oratória e histórico multicultural. O presidente dos EUA nasceu no distante Havaí, fruto uma relação interracial, de seu pai negro do Quênia e sua mãe branca do Kansas. Obama foi criado na Indonésia, a mais populosa nação islâmica do mundo e foi o primeiro negro a editar a prestigiada revista Harvard Law Review na Universidade de Havard. Barack Obama recebeu, em 2009, o Prêmio Nobel da Paz.

Para analistas políticos, essa visita diplomática também terá o papel de ratificar definitivamente a posição do Brasil como um player global. Na gestão do presidente Lula, o país aumentou sua projeção de poder, abrindo novos postos diplomáticos no continente africano, estando hoje entre os dez maiores doadores internacionais e liderando, desde 2004, a missão de paz no Haiti. Espera-se dessa visita apoio dos EUA para uma vaga permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Em visita à Índia, Obama manifestou apoio à participação daquele país na instância internacional. Não se sabe ainda se isso acontecerá com o Brasil.

Na área econômica, o diálogo com os EUA deve aumentar, uma vez que o Brasil já está a poucos passos de superar a Itália e assumir o posto de sétima economia mundial com o Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 3.675 trilhões em 2010. Não foi à toa que diversos líderes mundiais participaram da cerimônia de posse da presidente Dilma Rousseff, no último mês de janeiro, incluindo a secretária de Estado americano Hillary Clinton e o primeiro-ministro da Coréia do Sul, Kim Hwang-sik.

Espera-se na agenda de discussão, além de propostas comerciais, ações no campo social, como o Plano de Ação Conjunta Brasil-Estados Unidos para a Promoção da Igualdade Étnica e Racial (JAPER), um acordo diplomático assinado, em 2008, que visa realizar ações governamentais em prol da igualdade racial. O Plano que prevê ações nas áreas de educação, segurança pública, justiça ambiental, saúde e comunicação ainda segue a passos lentos, porém deve ser impulsionado esse ano com a declaração da ONU de que 2011 é o Ano Mundial dos Afrodescendentes e a própria visita do presidente Obama.

Dentre as ações do JAPER, até o momento, estão apenas o lançamento de edital para financiamento de projetos sociais de até 25 mil reais cada e troca de experiências contra discriminação racial entre academias de polícia militar dos dois países. Espera-se ainda ações no campo da saúde como o combate à Anemia Falciforme, empoderamento de empresários negros no contexto da Copa do Mundo e Jogos Olímpicos e acordos entre universidades para conceder bolsas de estudos para alunos afrodescendentes.

Na área de educação e economia os negros americanos têm a seu favor a possibilidade de compartilhar experiências exitosas de inclusão social. Apesar de ainda serem o segmento mais marginalizado daquela nação, se fossem um país em separado, os negros dos EUA seriam hoje a 11ª economia do mundo, com um poder de compra, em 2002, de aproximadamente US$ 631 bilhões. Esse tipo de inclusão só foi possível por conta da luta pelos direitos civis na década de sessenta e as ações afirmativas no ensino superior, apesar de números comprovarem que os negros ainda sofrem desvantagens no mercado de trabalho e serem a maioria nas prisões. Segundo dados do Pew Center, em 2009, a quantidade de afro-americanos adultos presos é quatro vezes maiores do que os brancos. Estima-se que 25% dos afro-americanos entre 15 e 35 anos passaram algum tempo no sistema prisional.

O sucesso de empreendedores negros como Oprah Winfrey, considerada pela revista Forbes como a mulher mais rica no mundo no século XX, a formação de cientistas como Henry Sampson, um dos inventores do aparelho celular, e artistas de sucesso no cinema provam que a troca de experiências com o Brasil é urgente e necessária, haja vista que os negros brasileiros encontram-se longe desse patamar de inclusão. Por outro lado, a cultura negra do Brasil atrai milhares de negros americanos para destinos como Bahia e Rio de Janeiro em busca de raízes comuns o que pode ser melhor aproveitado em termos de turismo e trocas culturais.

Após a visita de Obama, nos dias 21, 23 e 24 de março, estão sendo planejadas reuniões da sociedade civil dos dois países nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo para elaboração de estratégias de monitoramento desse acordo diplomático. A agenda, que ainda encontra-se em fechamento, inclui a apresentação da versão inicial de um portal de acompanhamento do Plano JAPER para que as organizações possam contribuir com sugestões de aprimoramento e possam colaborar com a iniciativa.

No Brasil, quase metade da população, cerca de 90 milhões de pessoas, são de origem afrodescendente. Apesar de ações com vistas à igualdade racial desenvolvidas no governo do ex-presidente Lula, ainda são latentes as desigualdades raciais que se manifestam na educação, mídia, mercado de trabalho, entre outras áreas da vida dos brasileiros. Para lideranças do movimento negro dos dois países, a visita do primeiro presidente negro estadunidense pode estimular mudanças positivas no Brasil, que ainda carrega uma forte carga de racismo institucional, e influenciar uma agenda comum pela equidade racial no Brasil e nos Estados Unidos.

Mais informações sobre a visita:

http://www.obamabr.org

Sobre o JAPER

http://www.embaixadaamericana.org.b...

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