Anticapitalismo na pauta do movimento negro

quinta-feira 20 de fevereiro de 2014

Professora defende ampliação da luta antirracista no país para uma perspectiva de classe

Na semana da morte de Nelson Mandela, a professora Francilene Cardoso (Biblioteconomia/UFRJ) defendeu a ampliação da pauta do movimento negro no Brasil para uma perspectiva de luta anticapitalista. Francilene – em exposição no seminário Cor e Classe na sociedade brasileira – invocou Malcolm X (líder do movimento negro nos EUA de inspiração socialista) e Clóvis Moura (jornalista militante e autor de O Negro na historiografia brasileira) como nomes que devem ser lembrados como referência da luta antirracista na sociedade brasileira.

O seminário foi organizado pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), coordenado pelo professor do Instituto de Economia/UFRJ, Marcelo Paixão. Na mesa, além de Francilene, que ali representava a Adufrj-SSind, e o próprio Paixão, estavam Francisco Carlos, coordenador do Sintufrj, e Lílian Barbosa, pelo DCE Mário Prata. O dirigente sindical chamou atenção para o “racismo institucional” que se manifesta em situações na universidade. Lílian Barbosa traçou o quadro pouco favorável enfrentado pelos estudantes “pretos e pobres” na UFRJ.

O professor Luciano Coutinho, diretor da Adufrj-SSind, uma das entidades que apoiaram o evento realizado no auditório da Escola de Serviço Social, em rápida intervenção, disse que a Seção Sindical está cada vez mais empenhada em trazer para o debate “questões temáticas essenciais” da vida da universidade, relacionadas a gênero, raça e diversidade sexual. O Laeser, organizador do seminário, é uma das referências acadêmicas de investigação da situação do negro na sociedade brasileira.

O coordenador do laboratório, Marcelo Paixão, teve atuação de destaque no Conselho Universitário na defesa da implantação de políticas afirmativas na UFRJ. Em debate recente, Paixão afirmara que a universidade aderiu com atraso às políticas afirmativas – o que aconteceu em agosto de 2010. Apesar da ressalva, no seminário da Praia Vermelha Paixão disse que nos últimos três anos já é possível registrar algumas mudanças na universidade.

O professor afirmou que o país já vive um período significativo de “democracia com distribuição de renda”, mas que é preciso construir uma outra universidade e uma sociedade que incorpore na agenda acadêmica de pesquisa, por exemplo, as questões relacionadas ao papel do negro na sociedade brasileira. E uma sociedade sem exclusão, autoritarismo e desigualdade.

Espelho da sociedade

No seminário, a professora Francilene Cardoso destacou que a UFRJ reflete a realidade da sociedade. Observou que a universidade possui mais de três mil professores, mas que entre estes, são pouquíssimos os que são negros. Os negros são encontrados na UFRJ em funções subalternas, registrou. Francilene, que também é militante do movimento “Favela não se cala”, criticou as UPPs que, na sua opinião, não constituem “uma política de segurança pública”, mas uma ação voltada para organizar a cidade de acordo com “os interesses do mercado”. Francilene atacou o governo do PT em relação à realidade enfrentada pela população negra. “O PT faz a gestão da barbárie”, acusou.

A professora disse que é preciso ampliar a agenda da luta do movimento negro, dentro de uma perspectiva de classe. Depois de citar Malcom X, para enfatizar a linha anticapitalista na luta dos negros, ela lembrou do significado da luta no Quilombo dos Palmares, o maior movimento de contestação da ordem escravista da época colonial. O Quilombo dos Palmares não era um aglomerado onde se encontravam negros fugidos. Era muito mais do que isso, ela informa. Tratava-se de um projeto político, econômico e social, onde não existia propriedade privada e que tinha o objetivo de contestar e de frear a economia colonial.

Abdias substitui ditador

O nome do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva (general que comandou o segundo governo da ditadura instaurada em 1964), em Nova Iguaçu (RJ), será substituído pelo fundador do Teatro Experimental do Negro, Abdias Nascimento (1914-2011). A escolha foi feita por meio de votação de alunos e professores.

Fonte: adufrj.org.br

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